Pegou a xícara com as duas mãos, toda cuidadosa, pra não deixar cair nem quebrar. Pequenos goles de chá esquentavam e acalmavam sua alma, resfriada pelo mal tempo lá de fora, calejada pelas indelicadezas de dentro. Era camomila. E ela, que nunca gostou muito de chá, via em cada gotinha uma esperança de sarar suas inquietações. Calmante não podia... o médico dispensara qualquer remédio, pois um pequeno deslize poderia corroer sua vida inteira. Aí optou pelas coisas naturais... meditação, música, chá, estrelas, espiritismo, floral-20-gotas-por-dia-a-cada-12-horas. Essas coisas todas que só funcionam com muita fé e paciência. Ah, e persistência, coisa pouca que ela quase não tinha, desde criança. Ouvia mãe dizer várias vezes que nunca conseguiria nada, já que nunca terminava as coisas que começava. Foi assim com a meditação, os cursos de doces, as aulas de violino, de pintura, de desenho e de corte-costura, entre tantas outras coisas que sem nem ter um porquê exato, abandonara em plena metade. Quase como covardia. Ou vai ver, inocencia mesmo, nada proposital. Impensado, sempre sem intenção de ferir. Porque já foi cortada, sangrada (no sentido figurado, claro) covardemente tantas vezes, que foi se tornando incapaz de deixar cicatrizes em alguém, simplesmente por saber da dor. Chegaria a cortar os próprios pulsos, mas nunca machucaria ninguém. Foi crescendo assim... essa coisa frágil, pequena, boba até. Meio cabisbaixa, meio silenciosa, sem se impor demais, pra não causar impacto nem chamar muita atenção.
Hoje, anda competindo com os monstros internos e os externos, sem saber muito bem quais os mais perigosos, mas consciente de que a qualquer momento tudo vai acabar, e devolver a paciência, graça e delicadeza que ela sempre teve. “É esse lugar mãe, que suga a alma das pessoas aos poucos. São as pessoas mãe, já com suas almas sugadas, tentando se encontrar no reflexo do outro. É desassossego demais, demais!”. Dizia sem perceber que é dentro... respira, auto-controle, mais um chá, aumenta-30-gotas-de-floral-pra-de-6-em-6-horas, vai ficar tudo bem, vai passar, respira outra vez, Chico canta “as águas de março fechando o verão” enquanto ela espera com ânsia a chegada do outono.