quinta-feira, 9 de abril de 2020

. [do livro de cartas] voltar sempre a dançar .

querida Bisa,

os tempos ficaram um tanto diferentes. onde é que já se viu não poder ir à rua nas tardes de outono? fico pensando em como seria se estivesses aqui, pairando nesses silêncios. sei que me dirias qualquer coisa relacionada ao tempo e à voz do nosso coração... mas devo lhe dizer, ainda, que sobre isso já aprendi. e, no entanto, continuo um tanto aflita, buscando algumas respostas que bem sei: não existem...

penso que se Salvador não tivesse partido, talvez a companhia dele faria com que eu me lembrasse das leis do universo e da força dos astros. e assim o mundo voltaria a ser leve. mas já combinei comigo, Bisa, que dessa vez aprendo a conviver com essa ausência, que me é presente há tantos verões. não o escrevi, também não telefonei. soube pelos recados do vento que os números mudaram e, nem assim, fui tentar saber sobre eles. guardei pra mim os meus sentidos, pensando em fazê-los aprender que é esse o amor que importa agora... e penso, aqui, que talvez nós dois tenhamos escolhido, assim, partir...

vez enquando, até chego à janela... ouço os vizinhos em suas alegrias, penso em como é bonito viver isso da união, dos sorrisos, da partilha do amor, ainda que ele se transforme às vezes em algumas farpas. penso também que passaremos por tudo isso, quando aprendermos a transformar nosso lado de dentro. "orações e meditações ajudam", cê bem me diria. "mas eles só não são capazes de salvar a gente da própria mesquinharia. é preciso que a gente aprenda a se olhar por dentro, pra que só então volte a valer tudo isso que nos é ofertado de maneira gentil". 

volto a pensar no outono, nas luzes alaranjadas enfeitando a varanda dos fundos, na forma de existir em mais calma e menos dor. 

há de existir um tempo em que a gente vai poder pisar o chão sem medo dos pés descalços. 
e voltar sempre a dançar...

com amor,
Alice

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