. MiniContos | Parte I .






NUNCA SE VIVEU UM VERÃO TÃO TRISTE




... a cada um que, na docilidade e fragilidade dos dias, 
ainda encontra um espacinho pro amor morar...




Diálogo
- Olha só o pomar carregadinho de pêssegos!
- Não são pêssegos.
- São sim. Posso ver daqui...
- Então, não é um pomar. É um pessegueiro.
- Por quê?
- Porque a gente só diz pomar quando são muitas árvores.
 (silencio)
- Você tinha razão.
- é?
- Sim. Não são pêssegos. São carambolas.
- E que diferença faz?
- Faz toda a diferença! Você já comeu carambola?
- Não.
- E pêssego?
- Também não.
- De que planeta você é?
- Venho tentando descobrir...



Preciso sair daqui. Não suporto esse barulho. Me leva pra casa? Como você consegue? O que tem aqui que você tanto gosta? São as pessoas e suas roupas estranhas? São as músicas, as bebidas, a comida? 

Acho que estou enlouquecendo ou vou enlouquecer com todas essas sirenes na rua e essas buzinas e todos esses carros e todos esses prédios grandes demais. 

Não quero mais sair... pode ir sempre que você quiser, mas eu quero ficar. Em casa tenho tintas e telas suficientes pra um mês inteiro. Tem comida também e se você não puder trazer mais, ligo pra Glória e peço pra ela passar no supermercado depois do trabalho e comprar algumas frutas, geleia, biscoitos e chá. Dou o dinheiro quando ela chegar.

Eu já saí do trabalho. Pedi férias ontem e só avisei ao Rodrigo que não volto mais. Estou cansada, muito cansada daquela correria que me obriga a correr também. Preciso de paz entende? Ainda não está na hora e eu preciso descansar...


1.

Eu não gosto de você. Descobri hoje de manhã. Fazia muito frio, eu não sabia o que dizer, aí pedi um café amargo pra me fazer de durona e te pedir pra juntar as malas e ir embora de uma vez. Por direito, as paredes, as cadeiras da mesa de jantar, o colchão alto e novo, o sofá e o tapete da sala, as rosas na jardineira na janela, é tudo mais meu que seu. Então, a casa é mais minha, mas deixo você encaixotar  aqueles quadros velhos pendurados no quarto. Umas coisas de cozinha também: pode pegar e levar. Só deixe as xícaras vermelhas, um prato e um talher, por favor... não vou receber visitas por enquanto, e quando for, vou querer tudo novo, pra não lembrar nossos domingos. Vou sentir saudade dos domingos... e de como tudo fica mais leve quando eles chegam. 

Vou sentir saudade de você... mesmo depois de perceber que não gosto mais, ou que vai ver, nunca gostei. É triste, eu sei, mas nunca gostei de você. Nem dos seus atrasos, nem das suas músicas, nem das suas roupas, nem dos seus retratos. E eu nunca entendi o que você diz... mas sempre fiquei pensando se você dizia ao certo o que queria dizer e se o que eu entendia, era ao certo o que eu deveria entender. E ao mesmo tempo, ver você saindo por aquela porta e me deixando pra trás, vai partir meu coração. A casa vai ficar tão vazia sem você! Mas a gente não pode ficar com quem a gente não gosta, e eu não quero me acostumar sabe? Como aqueles casais antigos, que permanecem juntos por medo da solidão. Tenho medo da solidão. Mas você não foi capaz nem de descobrir um remédio pra mim. E eu chorei tanto, tanto! Porque eu queria que a gente ficasse bem velhinho, juntos, naquela casa que dá pra nossa janela, lá no alto da serra. Já tinha até pensado em deixar você pendurar seus quadros lá, mas na varanda, porque pensei as paredes bem branquinhas e lisas do lado de dentro, pra gente não se cansar. Mas eu não vou envelhecer. E você precisa prometer que não vai morar na nossa casinha no alto da serra que dá pra nossa janela com a outra que você vai encontrar no seu próximo emprego ou no café da esquina da Rua 4. Promete que se for morar lá, você vai sozinho e vai colocar uma foto minha num porta retrato ao lado da TV? Promete que vai deixar as paredes brancas? Promete, por favor! 

2.

Ei, você vai sentir minha falta? Desculpa, mas eu preciso saber. Porque de repente, a gente pode se corresponder por carta. Acho tão bonito trocar cartas! A gente escreve uma por dia no começo e envia todas as sextas. Aí depois, a gente pode diminuir isso pra uma carta por semana e um envio por mês. Mas pra te escrever, eu preciso saber se você vai sentir minha falta. Não quero escrever pra alguém que nem vai se lembrar de mim quando ler o envelope. Pois eu vou sentir... muito a sua falta. Principalmente quando você acorda com aqueles olhinhos pequeninos de quem vê o mundo pela casa de um botão. Ou quando dança esquisito e me deixa vermelha, de tanta vergonha. A gente podia sair pra dançar, o que acha? Eu peço pra tocarem "L'home Aux Bras Ballants"! Aí depois você leva suas coisas embora. Não, eu não vou jogar tudo pela janela... vou deixar no escritório, debaixo da mesinha, eu prometo!

3.

Ontem de manhã, quando eu já não agüentava mais escrever tanto sobre circo e palhaços, eu comecei a pensar que eu sempre pensei demais e que vai ver foi por isso que minha vida foi se tornando demasiada fria e solitária. Vai ver foi por isso que mesmo sentindo desesperadamente sua falta quando você some, eu não gosto de você. Porque eu sempre pensei antes de gostar e isso não é certo. Você sabe se existe certo e errado? Apesar do professor de filosofia sempre dizer que não, eu acho que existe. Porque não dá pra viver de meios termos: ou é ou não é. Eu não gosto de meios termos, acho tão covarde fugir das coisas se escondendo no meio delas! A gente sempre se escondeu né... a gente passou esse tempo todo vivendo no meio das coisas e deixando que o certo fosse se misturando ao errado e vice- versa. Mas querendo ou não, a gente ainda tem um bocado de tempo pra tentar arrumar isso. Se você se organizar bem, vai ter tempo sim! Você só precisa parar um pouco, olhar mais pra você e se encontrar... eu sei que é difícil. Até hoje eu vivo me procurando. Mas me diz o que é fácil nessa vida!  Ainda não achei nada que fosse... as coisas são no máximo prazerosas. Fáceis? Jamais...

4.

Comprei um livro novo. Não me lembro do nome agora, mas parece ser bom. Outro dia vi Clarice Lispector dentro da sua mochila e li uma frase pequenina de Caio F. Abreu no seu caderninho de anotações. Aprendeste a lê-los e fiquei tão feliz, pois ainda bem que entre tantas coisas ruins que te fiz, uma herança bonita eu consegui deixar na tua vida. Caio vai te ajudar muito, você vai ver. Ele sempre me ajudou. Clarice não. Ela é mais dura que Caio. Ela não tem dó. Ela vai lá no fundo e dilacera nosso coração inteirinho com sua fragilidade dócil. Vez em quando, Caio tenta ser durão também. E usa de uma agressividade que não lhe cabe no branco do papel. Mas ele não consegue por muito tempo. Ele tinha um coração bom, assim como Clarice também. Mas as amarguras da vida não o fizeram mais ou menos triste. Ela não. Às vezes acho que ela tinha medo de ficar sozinha. Às vezes acho que eu também tenho...

5.

Dizem que com fé a gente consegue tudo o que quer. Queria borboletas, muitas, de todas as cores. Faz tempo que não vejo borboletas e isso me entristece tanto! Pensando bem, não sei o que me dói mais: não ver borboletas ou não gostar mais de você... o sumiço delas deixa o mundo menos colorido, menos livre. Sempre achei que ao inventar as borboletas, Deus estava pensando em algo bem bonito, tipo liberdade sabe. Eu já quis ser borboleta uma vez, só pra sair voando por lugares novos e sair um pouco daqui... é tão caro viajar e ando tão sem tempo e tão cansada! Dizem que borboletas têm vida curta. Eu também tenho. Como já te disse acho que não vou envelhecer... a gente teve vida curta juntos, né. Mas você não. Você vai envelhecer, vai gostar de mais um tanto de gente, vai continuar com suas manias estranhas, realizando seus sonhos tão grandiosos. E eu? O que eu tenho? Nem gostar das pessoas eu consigo! Nem isso! Você vai ter uma vida muito bonita, eu sei, eu desejo, eu prometo...

6.

Não fui ao médico de novo porque não quero saber o que eu tenho. Ele vai inventar um monte de novidades cardíacas e pulmonares, vai dizer que é tudo culpa do cigarro e do álcool, vai me impedir de comer um tanto de coisas e prolongar uma exausta estadia aqui, entende? Não quero ficar por mais muito tempo, já vivi intensidades demais... 

7.

Coloquei na mala aquele vestido anil que você tanto gosta. Estou levando o sapato amarelo também... você diz que os dois combinam tanto que, embora eu não concorde, resolvi considerar. Embarco para Paris na próxima semana. Eu sei que não sei falar francês, mas aprendi um pouco com a internet e com o Google Tradutor. Comprei um dicionário também... Não te contei antes porque fiquei com medo de você querer juntar dinheiro e vender o carro pra ir também e definitivamente, Paris não combina com você. Nem Paris, nem Ipanema, nem essas paredes, nem Amélie Poulain, nem eu. Como pude não perceber desde o inicio que a gente não combina? Como pude deixar isso se arrastar por tanto tempo? Vai ver como você mesmo diz, eu não tenho muita noção de tempo, afinal, nem horas eu sei olhar direito! Confundo os ponteiros. Não sei pra quê tantos! Um pros segundos, outro pros minutos, mais um pras horas e às vezes eu me confundo porque quando fico muito tempo aqui dentro, não sei se lá fora é dia ou noite. Aí me dá uma preguiça de abrir a janela e ouvir todos aqueles barulhos que me enlouquecem tanto! Ultimamente, tem feito noite todos os dias dentro de mim. Essa coisa de não sair mais de casa nem pra tomar sorvete ou chá, tem me feito substituir o sol pela lua... tem me feito esquecer qual cor o céu do dia tem. Eu sei que é azul, mas nem todos os azuis são iguais...

8.

Já é tarde, estou cada vez mais triste. E você não diz se a gente vai dançar ou se suas coisas saem hoje mesmo daqui. Não. Não espere porque eu não vou reconsiderar. A gente não gosta de ninguém por querer ou por reconsideração... a gente gosta porque vez enquando é bom sair da gente mesmo e se encontrar nos olhos do outro. Gosta porque chove, porque floresce, porque dorme, porque acorda, porque é natural... eu não sou normal. Porque eu não sei viver as coisas naturais. Eu não sei gostar de ninguém. Nem de você, que dedica tanto do seu tempo a mim, que dedica tanto o seu sorriso mais bonito todas as manhãs a mim, que me traz chocolates todos os dias só pra me ver sorrir, que cuida tão bem das minhas loucuras e da minha solidão. Lembro Guimarães Rosa na voz do professor de Literatura dizendo que a gente nunca sabe quando o vento se acaba aí eu sempre me perguntei se será que vento tem fim... nunca ninguém soube me responder. A vida eu sei que tem. E é breve. Não importa o quão doce ou amarga ela seja. O que importa aqui e pra mim, é sua brevidade sem nem sequer pensar se estamos deixando um amor pra traz, se é que o amor existe... reparou quantas dúvidas eu tenho? Mas agora me diz: será que é tarde pra tantas perguntas ou será que é muito cedo pra ir embora, sem uma resposta sequer? Só me diz isso, só...

9.

Eu nunca quis te machucar. Você sempre foi tão forte e eu tão frágil com a minha vida inconstante! E agora vejo você aí, chorando, juntando suas coisas uma a uma, dizendo que não tem pra onde ir e isso me parte o coração. Eu também não tenho pra onde ir. Nunca tive. Tanto que sempre que inutilmente precisei fugir, eu ligava pra você pra saber onde estava pra encontrar alguém que me impedisse de ir pra lugar nenhum. E você sempre segurou minha mão com tanta força e sempre me disse coisas tão bonitas! Que eu me arrependo de ter te machucado tanto... mas tem coisas na vida que a gente não escolhe. E confesso a você que se pudesse voltar no tempo eu viveria tudo de novo, do mesmo jeito. Porque apesar de, eu não saberia viver essa vida sem você passar por ela. Nem essa nem qualquer outra...

10.

Eu não gosto de você, está decidido e não tem solução. Não. Não adianta você renovar seu guarda-roupa, nem pegar meu mp4 pra gostar das minhas músicas, nem aprender a administrar melhor seu tempo, nem comprar uma câmera fotográfica pra trocar todos os seus retratos. É mais que isso. Precisa mais! E você não vai entender o que é preciso... porque nem eu entendo. Eu só sei que não está bonito do jeito que está. Não tem me feito bem. E eu preciso ficar bem. Não é só sua culpa. É minha também. Eu escolhi a solidão... você não vai se lembrar porque sua memória é muito curta, mas eu te disse uma vez que eu tenho medo das pessoas e que por isso preferia manter uma certa distancia delas. Me lembro que você riu e pensou que não fosse sério, afinal, sempre tive tantos "amigos" e sempre produzo tantas frases confusas! Mas é verdade e eu sinto muito... nasci pra ser só. E até hoje não entendo porque tentei curar minha solidão com você...

11.

Deu na previsão do tempo que vai chover amanhã. Não se esqueça de levar o guarda-chuva, senão você vai se molhar e resfriar. Você fica tão fraquinho quando resfria! E não vai ter ninguém pra fazer chá de limão e canela pra você tomar antes de dormir nem pra medir sua febre e fazer compressas pra ela baixar.  Mas não se preocupe que depois das tempestades vem sempre um céu bonito, limpinho e claro. Não gosto de dias quentes, mas às vezes queria morar na beira da praia, só pra mudar a paisagem um pouco. Abrir a janela, sentir a brisa fresquinha, acompanhar o movimento das águas indo e vindo, mudando milimetricamente tudo ao redor. Acho que só deveria existir verão nas cidades em que há praia... e nas outras, deveria ser inverno o tempo todo, com algumas alternâncias de outono e um pouquinho de primavera, só pra não perder a cor. Verão se parece com você, sabia? Sempre tão alegre, tão vivo, como um convite pra vida. Deixo o verão pra você. Pra que eu me lembre todas as tardes de como a gente foi feliz... mesmo com o calor, mesmo com as tempestades, os trovões e todos aqueles relâmpagos. Pensando assim, talvez eu tenha gostado de você um dia ou dois. Mas sempre tem um terceiro, um quarto... o tempo passa, as flores desabrocham, as frutas amadurecem, estações mudam... nada é o que parece ser... nada fica no mesmo lugar pra sempre.

12. 

Vai. Por favor! Não prolongue essa sua dor. Vai ser melhor assim, você vai ver... vai ter sol todos os dias na sua janela, coloque um bebedouro pros beija-flores na varanda e os passarinhos vão cantar todos os dias no portão. Quando chegar a primavera, as borboletas vão aparecer no pessegueiro em flor... sim, eu sei que não são pêssegos, nem pomar, nem carambolas. Mas deixa! Deixa eu ficar aqui, olhando da janela e imaginando o que existe lá. Deixa eu colecionar minhas rosas e minhas ilusões... assim me dói menos, você sabe que sim. Vai! Assim, bonito, de coração aberto e sorriso no rosto. Não se preocupe... que as lágrimas são pelo tempo, só pelo tempo. E é tão vago chorar pelo tempo, que amanhã ou ainda hoje mais tarde, eu já parei... vai! Está começando a me doer... e eu não quero que você veja quando a ferida sangrar...

Aí eu descobri que esse tempo todo, o meu não gostar de você, era na verdade, a minha maneira mais bonita de amar.