terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

às vezes a gente precisa dizer

Outro dia, mãe disse que tem medo da solidão e me encheu os olhos de lágrimas. Porque ela é coração puro demais pra sentir essas coisas tristes e porque embora grande de vida e de emoção, mãe é pequena sabe? Dessas pequenezas que precisam de cuidado o tempo todo, mas que aprendeu tão cedo as complicações da vida, que tirou as forças sabe lá Deus de onde, pra encarar o sol todas as manhãs. Perceber a fragilidade dócil das coisas e das pessoas pode ser assustador. Porque diferente de pai, mãe sempre foi aquela pessoa distante, grande, inabalável. Embora a visse chorando algumas vezes (sempre sem saber porque, já que ela nunca dizia), nunca pensei que ela fosse ter medo de ficar sozinha um dia. Nunca pensei que ela fosse ficar... aí eu fui embora pensando e comecei a entender, enfim, a beleza delicada das coisas e dos pequenos momentos. Aí eu comecei a querer que todos os dias fossem sexta à noite início de mês pra correr pra rodoviária e chegar em casa lá pelas 22h, e encontrar café feito na hora e pastel de carne quentinho, pra segurar as longas conversas com mãe até 2 da manhã. Aí eu pedi a Deus que me concedesse o privilégio de ser forte e ter os olhos carregados de doçura como mãe. Porque eu fico vendo as pessoas nessa querência toda de ser igual aos outros e eu, que nunca quis ser reflexo de ninguém (porque acho que nunca precisei, já que o que conta na vida é o que a gente consegue fazer de melhor da gente mesmo de acordo com o que a gente acredita), me vi parada desejando, do fundo do coração, ser na minha vida, metade do que mãe é na dela, na minha e na de tanta gente.

Não precisei fazer força nenhuma pra prometer pra mim mesma, cuidar dela com carinho, desse jeito que falto tanto às vezes e que me dói muito sempre. Mas precisei reunir toda a coragem que existe pra sentar na beira da cama, já distante uma hora e meia de casa, ligar pra mãe e dizer que cheguei, com os olhos marejados d'água, sem ela saber...

5 comentários:

nelio souto disse...

pôxa, lindo texto! até me fez pegar o telefone e ligar pra minha.

beijo!

Camila Sol disse...

Chorei! só isso que tenho a dizer!

Laísa disse...

mãe é feita do tecido de deus, simplemente.

deixo um beijo.

Jéssica Virgínia disse...

Um dos textos mais lindos que já li. Não há quem não se identifique... Parabéns Débora

Caroline. disse...

Indescritívelmente lindo.De arrepiar os braços de quem lê. Parabéns! Tem uma coisinha pra você no meu blog... corre lá quando puder, ok? :)

ótima semana, beijos.