sexta-feira, 14 de maio de 2010

Direção

- Onde você vai?
- Não sei. Tá fazendo tanto frio aqui!
- Separei uns cobertores. Pode pegar se quiser.
- Não vai adiantar. Não é fora. É dentro...
- E continua doendo?
- Sim. Dói como se nunca tivesse parado de doer um dia. Mas não é a mesma dor... é também solidão.
- E bem que tentei te avisar que era perigoso.
- Perigoso acho que nem é. Mas arriscado sim. Dizem que viver é correr riscos. Às vezes eu queria morrer então...
- Não quero que você morra!
- Mas às vezes é preciso... não morrer por inteiro, mas ir matando aos poucos, todo resto que a gente carrega por dentro.
- Você fala do passado?
- Também. Mas cabem os pesos do presente, que a gente insiste em carregar. E se não desfizer logo, corre o risco de ter que levar pro resto da vida...
- Não consigo entender...
- São as pessoas... que insistem em partir nosso coração em pedacinhos, sem nos dar Super Bonder pra colar.
- Será que teria como pedir pra Deus mandar as pessoas pro mundo carregando kits de primeiros socorros?
- Ele não conseguiria entender...
- Eu também não entendo
- Acontece que a gente tem um coração. E ele é a única garantia que podemos ter de que a vida continua passando e pulsando. Por isso a gente sente quando ele bate forte... por isso quando a gente coloca a mão no peito, consegue sentir ele batendo. São sinais de vida dentro da gente... ele bate pra gente não esquecer.
- E quando as pessoas partem ele, me explica como ele ainda consegue bater!
- Ele continua batendo pra nos mostrar que mesmo em pedaços, a vida ainda existe. Mesmo entre dores e mágoas, a vida e o tempo não param.
- Continua frio?
- Sim. Preciso de algo quente pra me animar...
- Serve chá?
- Prefiro outro coração... pra ficar bem junto do meu, e me ensinar essa coisa de gostar outra vez. Porque hoje eu não sei mais...

3 comentários:

João Killer disse...

Esse texto está muito parecido comigo. Está cheio de palavras que soltas que disse para meus amigos e usei de conselho pra minha vida. Não é fácil mesmo entender como viver sem o que nos alimenta, mas também sabemos que é impossível viver sem sofrer. Então o mais certo é sempre acalmar o coração na esperança que ele vai se regenerando e sempre vai está vivo novamente e que se um dia ele não regenerar novamente é porque chegou a hora de morrer. Mas talvez isso não seja ruim, morrer pode ser o fim de corações partidos e o começo pra uma vida com um coração zero bala. Bom te ler.

Bianca disse...

nem eu sei mais.

Augusto Garcia disse...

Olá, primeira vez que passo ai, bem legal o texto.
Acho que todo mundo já se sentiu assim, querendo morrer, as poucos, faz parte, eu acho!

Inté!